Memorial de Falecimento

Manoel Lisboa de Moura

21/02/1944 16/08/1973

A segunda-feira de carnaval amanheceu agitada em Maceió. Era dia 21 de fevereiro de 1944 e pelas ruas da cidade a ladainha de foliões repetia versos de sucessos carnavalescos, que saíam da boca misturados a sabores de bebidas variadas. Naquele ano, Linda Batista – o nome artístico da paulista Florinda Grandino de Oliveira – fazia sucesso com “Clube dos Barrigudos”, música composta pela dupla Haroldo Lobo e Cristóvão de Alencar que era exaustivamente tocada em bailes carnavalescos país afora. “No clube dos barrigudos/ Só há baile uma vez por ano/ Não dança samba, não/ Não dança rumba, não/ Só dança valsa lenta para piano…”, diziam os versos, cantados por jovens, senhoras e senhores, muitos deles com protuberantes barrigas – uma espécie de arremedo da própria música. Na voz de Linda Batista – eleita a Rainha do Rádio em 1937, um ano depois de estrear no programa de Francisco Alves na Rádio Cajuti – a marchinha fazia os foliões se agitarem ainda mais.

À noite, longe da folia, no número 242 da Rua do Pará, situada no bairro nobre do Farol, a família Lisboa de Moura vivia outro tipo de agitação. Dava para sentir, nos sorrisos e olhares de todos, que havia motivos numerosos para comemoração que até lembravam trechos da marchinha “Mamãe eu Quero”, considerada o maior sucesso carnavalesco desde 1937, apenas dois meses após ser gravada por Jararaca – nome artístico do alagoano José Luís Rodrigues Calazans – pela Odeon. A música, feita em parceria com o paulista Vicente Paiva, chegou a ser desacreditada pela dupla, mas se tornaria obrigatória em todos os carnavais a partir de então, sendo catapultada a sucesso internacional depois de ser levada para os Estados Unidos por uma orquestra americana que se apresentara em 1937 no Cassino da Urca. Renascia, assim, “I Want My Mama”, lançada por Carmen Miranda no filme “Serenata Tropical”, de 1940, e interpretada à exaustão por nomes como Bing Crosby.

A marchinha fizera tanto sucesso que em 1946, quando Jararaca se candidatou a uma vaga na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi adaptada como jingle de sua campanha, sendo executada à exaustão em comícios do partido. Jararaca não ganhou, mas sua mais famosa composição continuaria sendo eleita por milhões de foliões todos os anos como símbolo do carnaval no País. Mas a família Lisboa de Moura não estava interessada em nada disso naquele momento. Mais do que um hino carnavalesco, para os que frequentavam a casa da Rua do Pará, versos como “Dorme filhinho do meu coração” bailavam nos ouvidos como canção de ninar para o pequeno Manoel, que acabara de nascer e era o motivo da alegria. Em comum com a música, Jararaca e o bebê teriam, além do fato de serem alagoanos, o comunismo e os pseudônimos – que o futuro líder teria que usar para fugir da perseguição que lhe seria imposta pela ditadura militar.

O espírito de liderança, aliás, afloraria cedo no menino e seria presenciado pelo colega de escola Valmir, de dez anos de idade, durante uma briga com outro amiguinho, no intervalo entre uma aula e outra do Grupo Escolar Experimental. Sereno, Manoel Lisboa interveio na contenda com uma sabedoria e imparcialidade que impressionaram os brigões. De onde vinha aquela sensatez de uma criança mais nova do o colega brigão? “Calmo, introspectivo, alegre, avesso à violência, transmitia confiança e a impressão de estar sempre um pouco adiante de nós”, lembraria, muitos anos depois, o já veterinário Valmir Costa. Gestos nobres também fariam parte da vida do garoto. Certa vez, um coleguinha estava sem o dinheiro da passagem de ônibus para voltar para casa. Em solidariedade ao colega, subiu com ele a ladeira do bairro do Farol, o calor de meio-dia empapando-lhe a farda. Era a sua maneira franca de dizer que estava do lado do amigo. Sem se dar conta, Manoel começava ali a arrancada para a carreira de líder, que exerceria com inteligência, carisma e companheirismo até o último dia de sua vida. Já jovem, o percurso natural da vida o levou a ingressar na militância estudantil e partidária, integrando, aos 16 anos, os quadros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) – sigla que abandonaria dois anos depois por acreditar que o partido não representava as necessidades reais de uma vanguarda revolucionária. Já estudante da Faculdade de Medicina de Alagoas, Manoel Lisboa participaria de manifestações como filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que, na época, erguia a bandeira do antirreformismo e da revolução. Começava ali a chamar a atenção como líder e – consequentemente – a desagradar alguns grupos. Muito tempo depois, um editorial do jornal A Luta, fundado por ele com o propósito de divulgar a causa revolucionária, daria a dimensão dessa perseguição: “Por sua atuação no movimento estudantil, em Maceió, defendendo a linha revolucionária do Partido Comunista do Brasil, criticando o oportunismo dos militantes do PCB, atraiu para si o ódio desta organização, que não poupou esforços para caluniá-lo e até a foragir-se, tendo sua casa invadida por policiais armados de metralhadora”.

A invasão à casa de seus pais foi o que faltava para Manoel Lisboa perceber que corria risco de vida. Teria que desaparecer dali, para não colocar sua família em perigo. Antes de dar adeus, cortou um cacho de cabelos e o entregou à mãe, que o manteria guardado junto a si por intermináveis dias. Deixou para trás o nome e o lugar onde havia nascido e crescido. A partir dali, já não seria mais o camarada Manoel. Assumiria outros codinomes com os quais lutaria contra as forças opressoras…

(Continua)

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